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Meleágro - Mitologia

MELEAGRO
Um dos heróis da expedição dos argonautas foi Meléagro, filho de Eneus e Altéia, rei e rainha de Cálidon. Quando seu filho nasceu, Altéia viu as três Parcas, que, enquanto teciam o fio fatal, previram que a vida da criança não duraria mais que uma acha de lenha que estava sendo queimada no fogão. Altéia pegou a acha, apagou-a e conservou-a, cuidadosamente, durante anos, enquanto Meléagro atravessava a infância, a adolescência e a virilidade. Ora, aconteceu, então, que Eneus, ao oferecer sacrifícios aos deuses, esqueceu-se de prestar as honras devidas a Diana, e esta, indignada, mandou um enorme javali flagelar os campos de Cálidon. Os olhos do animal lançavam chispas de fogo, suas cerdas pareciam chuços pontiagudos e seus dentes eram como as presas dos elefantes da Índia. O javali devastou os trigais, as vinhas e as oliveiras, e, com suas matanças, dispersou e confundiu os rebanhos. Todos os recursos comuns foram inúteis, mas Meléagro convocou os heróis da Grécia para caçarem, juntos, o malfazejo monstro. Teseu e seu amigo Píritos; Jasão, Peleu, que seria mais tarde pai de Aquiles; Télamon, pai de Ajax; Nestor, então jovem, mas que, depois de velho, lutaria ao lado de Aquiles e Ajax, na Guerra de Tróia, estavam entre os muitos que participaram da expedição. Com
eles encontrava-se Atalanta, filha de Iásio, rei da Arcádia. Uma fivela de ouro polido prendia-lhe a veste, uma aljava de marfim pendia-lhe do ombro esquerdo e com a mão esquerda carregava o arco. Em seu rosto, a beleza feminina combinava-se com as graças da juventude marcial. Ao vê-la, Meléagro amou-a. Os jovens heróis já se encontravam, porém, perto do covil do monstro. Estenderam redes de árvore em árvore, soltaram os cães e procuraram encontrar na relva as pegadas da fera. Havia um bosque que descia até um terreno pantanoso. Ali o javali, escondido entre os juncos, ouviu os gritos de seus perseguidores e investiu contra eles. Um ou outro foi derrubado e morto. Jasão lançou seu dardo, dirigindo uma prece a Diana, para ser bem-sucedido; a deusa permitiu que a arma tocasse o animal, mas não o matasse, afastando a ponta de ferro do dardo enquanto este cortava o ar. Nestor, atacado pela fera, procura e encontra salvação nos galhos de uma árvore. Télamon investe, mas, tropeçando numa raiz saliente, cai de bruços. Finalmente, porém, uma seta desfechada por Atalanta derrama, pela primeira vez, o sangue do monstro. E um ferimento leve, mas Meléagro o vê e o anuncia, alegremente. Anceu, invejoso do louvor feito a uma mulher, proclama em voz alta o próprio valor e desafia, ao mesmo tempo, o javali e a deusa que o enviara; ao avançar, porém, a fera enfurecida derrubou-o, mortalmente ferido. Teseu atira sua lança, que é desviada, porém, por um galho de árvore. O dardo de Jasão erra o alvo e, em vez do javali,
mata um de seus próprios cães. Meléagro, contudo, depois de golpes infrutíferos, crava a lança no flanco do monstro e o acaba matando, com repetidas cutiladas. Gritos de aclamação erguem-se em torno; todos congratulam-se com o autor da façanha, rodeando-o para cumprimentá-lo. Ele, pondo o pé sobre o javali, volta-se para Atalanta e oferece-lhe a cabeça e a pele do animal, que eram os troféus do seu sucesso. A inveja, no entanto, levou o resto dos caçadores à luta. Pléxipo e Toxeu, irmãos da mãe de Meléagro, além dos demais, opõem-se ao presente e arrebatam das mãos da donzela o troféu que ela havia recebido. Meléagro, furioso com o que lhe haviam feito, e mais ainda com a ofensa feita àquela que amava, esquece-se dos deveres de parentesco e crava a espada no coração de ambos os ofensores. Quando Altéia conduzia aos templos oferendas de agradecimento pela vitória do filho, vê os corpos dos irmãos assassinados. Tremendo, esmurra o peito e corre a mudar as vestes de regozijo pelas de luto. Vindo, porém, a saber quem foi o autor do feito, a dor cede lugar a um duro desejo de vingança contra o próprio filho. Pega a acha de lenha que outrora retirara das chamas, e à qual estava presa a vida de Meléagro, e ordena que se acenda um fogo. Então, por quatro vezes tenta colocar a acha na fogueira, e quatro vezes recua, estremecendo à idéia de provocar a morte do próprio filho. Os sentimentos de mãe e de irmã lutam dentro dela. Ora empalidece, com a idéia do que poderia ocorrer, ora seu rosto se congestiona, enraivecida com o que fizera o filho. Como um barco empurrado numa direção pelo vento e noutra direção pelas ondas, o espírito de Altéia é preso da dúvida. Agora, porém, a irmã prevalece sobre a mãe e ela exclama, segurando a acha fatal: Voltai-vos, Fúrias, deusas do castigo! Voltai-vos, para contemplardes o sacrifício que faço! O crime clama por crime. Deverá Eneus regozijar-se com seu filho vitorioso, enquanto a casa de Testius está desolada? Mas, ah! A que ação sou levada? Irmãos perdoai a fraqueza de uma mãe. Minhas mãos traem-me. Ele merece a morte, mas não que eu o mate. Deverá, contudo, viver, triunfar e reinar sobre Cálidon, enquanto vós, meus irmãos, vagareis entre as sombras, não vingados? Não! Viveste graças a mim. Morre, agora, por teu próprio crime! Devolve a vida que duas vezes te dei primeiro pelo nascimento, depois, quando retirei esta acha de lenha do fogo. Ah! Triste vitória é esta que conquistais meus irmãos, mas conquistai-a! E, virando o rosto, atirou a madeira fatal às chamas crepitantes. Estas deram, ou pareceram dar um gemido profundo. Meléagro, ausente, sem conhecer a causa, sentiu uma dor repentina. Sente queimar-se e apenas graças à sua coragem consegue vencer a dor que o destrói. Lamenta apenas perecer de uma morte incruenta e sem honra. Com o último suspiro, chama seu velho pai, seu irmão, suas queridas irmãs, sua amada Atalanta e sua mãe, a causa desconhecida de sua morte. As chamas aumentam e, com elas, o sofrimento do herói. Depois, ambos diminuem e desaparecem. A madeira transforma-se em cinzas e a vida de Meléagro perde-se entre os ventos. Consumado o ato, Altéia voltou contra si mesma as mãos violentas. As irmãs de Meléagro choraram o irmão desesperadamente, até que Diana, apiedando-se da casa a que levara tantos dissabores, transformou-as em aves.

Fonte: O Livro de Ouro da Mitilogia



















Cadmo, Harnia e a fundação de Tebas


isfarçado em touro, Júpiter raptara Europa, filha de Agenor, rei da Fenícia. Agenor ordenou a seu filho Cadmo que saísse à procura da irmã e não voltasse sem ela. Cadmo partiu e procurou a irmã por muito tempo e por longínquas terras, mas não conseguiu encontrá-la e, não se atrevendo a regressar sem cumprir a missão, consultou o oráculo de Apolo, para saber em que país deveria fixar-se. O oráculo respondeu que ele encontraria uma vaca no campo e deveria segui-la, acompanhando-a aonde fosse e, onde a vaca parasse, ele deveria construir uma cidade e chamá-la de Tebas. Mal saíra da gruta de Castália, onde o oráculo se manifestava, Cadmo avistou uma novilha, caminhando vagarosamente diante dele. Seguiu-a de perto, dirigindo, ao mesmo tempo, preces a Febo. A vaca atravessou o raso canal de Cefiso e entrou na planície de Panope. Ali ficou imóvel, levantando a cabeça para o céu e enchendo o ar com seus mugidos. Cadmo agradeceu ao deus e, parando, beijou o solo estrangeiro e depois, levantando os olhos, saudou as montanhas circunjacentes. Desejando oferecer um sacrifício a Júpiter, mandou seus criados procurarem água pura para a libação. Perto, estendia-se um velho bosque, que jamais fora profanado pelo machado, no meio do qual havia uma gruta, escondida pelo mato espesso, com o teto formando uma abóbada baixa, da qual saía uma fonte de água puríssima. Na caverna dormia uma horrível serpente, de grande crista e escamas que brilhavam como ouro. Seus olhos flamejavam como fogo, o corpo era repleto de veneno e a boca tinha uma língua tríplice e três fileiras de dentes. Mal haviam os tírios mergulhado seus odres na fonte, provocando um ruído na água, a brilhante serpente levantou a cabeça fora da gruta e soltou um silvo horripilante. Os servos deixaram cair às vasilhas, o sangue lhes fugiu da face e eles se puseram a tremer da cabeça aos pés. A serpente, contorcendo o corpo escamoso, levantou a cabeça até as árvores mais altas e, como os tírios, aterrorizados, não podiam fugir nem lutar, matou alguns com seus dentes, outros com seu abraço e outros com sua respiração venenosa. Tendo esperado até meio-dia pelo regresso de seus homens, Cadmo saiu à sua procura. Vestia uma pele de leão e, além do dardo, levava na mão uma lança e, no peito, trazia um coração valoroso, proteção melhor que qualquer das outras. Ao entrar no bosque, vendo os corpos sem vida de seus homens e o monstro com as maxilas ensangüentadas, exclamou: — Oh, fiéis amigos! Hei de vingar-vos ou compartilhar vossa morte. Assim dizendo, ergueu uma enorme pedra e atirou-a, com toda a força, na serpente. O choque abalaria as muralhas de uma fortaleza, mas não afetou o monstro. Cadmo arremessou seu dardo, que conseguiu melhor resultado, pois penetrou entre as escamas da serpente, atingindo-lhe as entranhas. Furioso com a dor, o monstro virou a cabeça para a ferida e tentou arrancar a arma com os dentes, mas quebrou-a, deixando a ponta de ferro cravada em sua carne. Seu pescoço intumesceu de raiva, uma espuma sangrenta lhe saiu da boca e a respiração de suas narinas empestou a atmosfera. Contorceu-se, formando um círculo, depois estendeu-se no chão, como o tronco de uma árvore caída. Enquanto avançou, Cadmo foi recuando, apontando a lança para a boca escancarada do monstro. A serpente investiu contra a arma e tentou morder sua ponta de ferro. Afinal, Cadmo, aproveitando a oportunidade, moveu a lança no momento em que a cabeça do animal fora empurrada de encontro ao tronco de uma árvore e conseguiu, assim, prendê-lo pelo flanco. O peso do animal curvou a árvore, ao mesmo tempo em que ele se debatia nas vascas da agonia. Enquanto Cadmo, de pé, junto do inimigo vencido, contemplava seu enorme tamanho, ouviu sua voz (de onde vinha não sabia, mas ouviu-a distintamente) ordenando-lhe que tomasse os dentes da serpente e com eles semeasse a terra. Obedeceu. Abriu uma cova na terra e semeou os dentes, destinados a produzir uma colheita de homens. Mal o acabara de fazer, os torrões de terra começaram a mover-se e as pontas de lanças apareceram acima da superfície do solo, depois surgiram elmos com seus penachos, depois os ombros, o peito e os membros de homens armados, e, afinal, uma colheita de guerreiros. Cadmo, assustado, preparava-se para enfrentar um novo inimigo, quando um dos homens lhe disse: — Não te intrometas em nossa guerra civil. Assim dizendo, atravessou com a espada um dos companheiros recém-surgidos e ele próprio caiu atravessado pela seta de um outro. Este último caiu vítima de um quarto, e, dessa maneira, toda a multidão lutava entre si, até que todos caíram, mortos uns pelos outros, com exceção de cinco. Um destes últimos atirou fora as armas e gritou: — Vivamos em paz, irmãos!
Estes cinco juntaram-se a Cadmo, para fundação da cidade a que deram o nome de Tebas. Cadmo casou-se com Harmonia, filha de Vênus. Os deuses deixaram o Olimpo para honrar o acontecimento com a sua presença, e Vulcano presenteou a noiva com um colar de grande beleza, obra dele próprio. A fatalidade, porém, pesava sobre a família de Cadmo, por ter ele matado a serpente consagrada a Marte. Suas filhas, Sêmele e Ino, e seus netos, Actéon e Penteu, tiveram todos morte desventurosa e Cadmo e Harmonia saíram de Tebas, que se lhes tornara odiosa, e emigraram para o país dos enquelianos, que os receberam com honras e fizeram de Cadmo seu rei. O infortúnio de seus filhos continuava, porém, a atormentar o casal, e, certo dia, Cadmo exclamou: — Se a vida de uma serpente é tão cara aos deuses, eu preferia ser uma serpente. Mal pronunciara estas palavras, começou a mudar de forma. Harmonia viu o que estava acontecendo e implorou aos deuses que a fizessem compartilhar do destino do marido. Ambos transformaram-se em serpentes. Viviam nos bosques, mas, ciosos de sua origem, não evitavam a presença do homem, nem faziam mal a quem quer que fosse. Segundo a tradição, Cadmo introduziu na Grécia as letras do alfabeto, inventadas pelos fenícios. Byron alude a isso, quando, dirigindo-se aos gregos modernos, diz:
Tendes as letras que Cadmo ofertou.
Achais que era um presente para escravos?
Milton, descrevendo a serpente que tentou Eva, relembra as serpentes das lendas clássicas e diz:
Era belo e agradável seu aspecto
Mais belo que qualquer outra serpente,
Mesmo aquelas em que se transformaram
Hermíone e Cadmo na Ibúria
E o deus de Epidauro.








Fonte: O Livro de Ouro da Mitologia

CEIX E ALCÍONE: AS ALCÍONES


Ceix era rei da Tessália, onde reinava em paz, sem cometer violência ou injustiça. Era filho de Vésper, a Estrela-d'Alva, e o esplendor de sua beleza lembrava a do pai. Alcíone, filha de Éolo, era sua esposa, amante e dedicada. Ora, Ceix sentia-se profundamente aflito pela morte do irmão, e os horríveis prodígios que se seguiram a essa morte davam-lhe a impressão de que os deuses lhe eram hostis. Resolveu, portanto, fazer uma viagem a Carlos, na Jônia, a fim de consultar o oráculo de Apolo. Porém, logo que revelou sua intenção à esposa, Alcíone, esta estremeceu e tornou-se mortalmente pálida. — Que culpa minha, querido marido, afastou de mim o teu afeto? — perguntou ela. — Onde está aquele amor que dominava todos os nossos pensamentos? Aprendeste a te sentires bem, longe de Alcíone? Preferias que eu me afastasse de ti? Também tentou desanimá-lo, descrevendo a violência dos ventos, que conhecera muito bem, quando vivia em casa de seu pai, pois Éolo é o rei dos ventos, e fez todo o possível para dissuadi-lo. — Eles correm juntos — disse — com tanta fúria que o fogo irrompe do conflito. Mas se vais, querido marido, deixa-me ir contigo, de outro modo sofrerei não apenas os males verdadeiros que encontrares como também aqueles que meu temor sugerir. Estas palavras afetaram profundamente o espírito do Rei Ceix, que não desejava menos que a esposa, levá-la consigo, mas não podia expô-la aos perigos do mar. Respondeu, portanto, consolando-a como podia, e terminou com estas palavras: — Prometo pelos raios de meu pai, a Estrela-d'Alva, que, se o destino permitir, voltarei antes de a Lua ter girado duas vezes sobre sua órbita. Tendo assim falado, ordenou que o navio fosse tirado do estaleiro e os remos e velas colocados a bordo. Ao ver esses preparativos, Alcíone tremeu, como se tivesse pressentimento do mal. Com lágrimas e soluços, disse adeus ao marido e caiu sem sentidos no solo. Ceix, por seu gosto, teria retardado a partida, mas os jovens marinheiros tinham tomado os remos e avançavam vigorosamente entre
as ondas, com pancadas longas e cadenciadas. Alcíone ergueu os olhos lacrimosos e viu o marido de pé no convés, acenando-lhe. Respondeu ao aceno, até que o navio se afastou tanto que ela já não podia distinguir o vulto de Ceix dos demais. Quando o próprio navio já não pôde ser visto, a jovem rainha aplicou os olhos para avistar as velas num último relance até que estas também desapareceram. Retirou-se, então, para o seu quarto e lançou-se ao leito solitário. Enquanto isso, os navegantes saíam do porto e a brisa brincava no cordame. Os marinheiros manejavam os remos e alçaram as velas. Quando mais ou menos metade do trajeto fora feito, o mar começou a embranquecer com ondas e o vento leste a soprar como um furacão. O mestre ordenou que se recolhessem as velas, mas a tempestade impediu que a ordem fosse cumprida, pois os gritos de comando não eram ouvidos entre o ruído dos ventos e das ondas. Os marinheiros, espontaneamente, tratavam de recolher os remos e rizar as velas. Enquanto assim fazem o que a cada um parece o melhor, a tempestade aumenta. Os gritos dos homens, o rangido das enxárcias e o batido das vagas misturam-se com o estrondo do trovão. O mar furioso parece levantar-se até o céu, para espalhar entre as nuvens sua espuma, depois, baixando até o fundo, tomar a cor do carvão: um negrume do Estige.

O navio acompanha todas essas mudanças. Parece um animal selvagem que corre sob as lanças dos caçadores. A chuva cai em torrentes, como se o céu estivesse caindo para se unir com o mar. Quando os raios cessam, por um momento, a noite parece ajuntar sua própria escuridão à da tempestade; em seguida vem o relâmpago, afastando as trevas e tudo iluminando com seu clarão. A habilidade falha, a coragem desaparece e a morte parece vir em cada vaga. Os homens ficam estupidificados de terror. Vêm-lhes à lembrança os pais e filhos, os parentes deixados em casa. Ceix pensa em Alcíone. Apenas o seu nome está em seus lábios e, ao mesmo tempo que anseia por vê-la, regozija-se com a sua ausência. De súbito, o mastro é despedaçado por um raio, o leme se quebra e a onda triunfante varre o tombadilho e sai em seguida, levando os destroços. Alguns dos marinheiros, petrificados pelo choque, afundam-se na água e não mais se erguem; outros agarram-se aos restos do naufrágio. Ceix, com a mão que costumava segurar o cetro, agarra-se a uma tábua, gritando por socorro — em vão, por desgraça — ao seu pai e ao seu sogro. O nome de
Alcíone, porém, era o que mais vezes vinha aos seus lábios. Para ela voltam-se os seus pensamentos. Pede que as ondas possam levar seu corpo até Alcíone e que seus funerais por ela sejam feitos. Finalmente, as águas o cobriram e ele se afunda. A Estrela-dAlva mostrou-se sombria naquela noite. Como não podia deixar o céu, escondeu nas nuvens a face. Enquanto isso, Alcíone, ignorando todos esses horrores, conta os dias para o prometido regresso do marido. Ora prepara as vestes que ele envergará, ora as que ela própria usará quando ele regressar. Oferece, freqüentemente, incenso a todos os deuses, porém mais do que todos a Juno. Reza, incessantemente, pelo marido que já não vive: que ele esteja salvo; que regresse ao lar; que não veja, em sua ausência, outra mulher que possa amar mais que a ela própria. De todas essas súplicas, porém, a última era a única destinada a ser atendida. A deusa, afinal, não mais suportando ouvir preces por alguém que era morto e ver estendidos em seus altares os braços que deveriam erguer-se nos ritos funerários, chamou íris, ordenando: — íris, minha fiel mensageira, vai à casa letárgica do Sono e dize-lhe para enviar uma visão a Alcíone, sob a forma de Ceix, a fim de que ela saiba o que aconteceu.

Íris envergou suas vestes de muitas cores e tingindo o espaço com seu arco, procurou o palácio do Rei do Sono. Perto da região cimeriana, numa caverna da montanha, fica a morada daquele deus sonolento. Ali Febo não ousa entrar, nem ao se levantar, nem ao meio-dia, nem quando se recolhe. Nuvens e sombras erguem-se do chão e a luz brilha fracamente. A ave da alvorada, de vermelha crista, jamais ali chama, em voz alta, Aurora, nem o vigilante cão ou o solerte ganso perturbam o silêncio. Nem animal selvagem, nem o gado, nem um ramo movido pelo vento, nem o ruído da conversa humana afetam a quietude. O silêncio ali reina; do fundo do rochedo, contudo, corre o Rio Letes, e seu murmúrio convida ao sono. Junto à entrada da caverna, crescem abundantemente papoulas e outras plantas, de cujo suco a Noite extrai o sono, que espalha sobre a terra escurecida. Não há na mansão porta que gema nos gonzos, nem qualquer vigia; mas, no centro, um leito de negro ébano, adornado com plumas e cortinas negras. Ali o deus se recosta, com os membros relaxados pelo sono. Em torno dele, estão os sonhos, apresentando todos várias formas, tantas quantas hastes têm os trigais, quantas folhas tem a floresta, ou quantos grãos de areia têm as praias. Logo que a deusa entrou e afastou os sonhos que se reuniam em torno dela, seu clarão iluminou a caverna. O deus, mal abrindo os olhos, e de vez em quando cabeceando e fazendo cair a comprida barba sobre o peito, afinal despertou e estendendo o braço indagou a que vinha íris, pois a conhecia. — Sono — disse ela —, tu o mais gentil dos deuses, que tranqüilizas os espíritos e curas os corações amargurados, Juno ordena-te que envies um sonho a Alcíone, na cidade de Traquine, representando seu finado marido e todos os acontecimentos do naufrágio.

Tendo transmitido o recado, Íris apressou-se em sair, pois não podia tolerar o ar estagnado, e, sentindo a sonolência que a tomava, voltou, através de seu arco, ao caminho que trilhara antes. Então, Sono chamou um de seus inúmeros filhos, Morfeu, o mais hábil em simular formas e em imitar o andar, a fisionomia e a maneira de falar, mesmo os vestuários e os modos mais característicos de cada um. Ele, porém, apenas imitava os homens, deixando ao encargo de outro imitar aves, quadrúpedes e serpentes. Este era chamado Icelo; e um terceiro, Fantasos, muda-se em rochedos, águas, bosques e outras coisas sem vida. Os
dois servem a reis e grandes personagens, em suas horas de sono, ao passo que outros se movem entre a gente comum. De todos os irmãos, Sono escolheu Morfeu para executar a ordem de Íris. Depois, encostou a cabeça no travesseiro e entregou-se ao grato repouso.

Morfeu voou, sem fazer o menor ruído com as asas, e logo chegou à cidade hemoniana, onde, deixando de lado as asas, assumiu a forma de Ceix. Sob esse aspecto, mas pálido como um defunto, e nu, colocou-se em frente ao leito da desventurada esposa. Sua barba parecia encharcada e a água lhe escorria pelos cabelos. Debruçando-se sobre o leito, com lágrimas descendo dos olhos, disse: — Reconheces Ceix, desventurada esposa, ou a morte modificou em demasia as minhas feições? Olha-me, vê-me, a sombra de teu marido, e não ele próprio. Tuas preces, Alcíone, de nada me valeram. Estou morto. Não te iludas mais com vãs esperanças de meu regresso. Os ventos tempestuosos afundaram meu navio no Mar Egeu, a água penetrou em minha boca enquanto eu dizia, em voz alta, o teu nome. Não é um mensageiro incerto que te conta isto, não é um vago rumor que chega aos teus ouvidos. Venho em pessoa, eu um náufrago, contar-te meu destino. Levanta-te! Dá-me lágrimas, dá-me lamentos, não me

deixes descer ao Tártaro sem ser chorado. A estas palavras Morfeu ajuntou a voz que parecia ser a do marido de Alcíone; vertia lágrimas iguais às de verdade, e suas mãos copiavam os gestos de Ceix. Alcíone, chorando, gemeu e estendeu os braços, ainda dormindo, procurando abraçar o corpo, mas encontrando apenas o ar. — Fica! — exclamou. Por que foges? Partamos os dois juntos! Sua própria voz despertou-a. Assustada, olhou em torno, para ver se o marido ainda estava presente, pois os criados, alarmados por seus gritos, haviam acorrido, trazendo uma luz. Não encontrando o marido, Alcíone esmurrou o peito e rasgou as vestes. Não se preocupou em desatar os cabelos, mas arrancou-os, selvagemente. Sua ama indaga qual a causa de seu
sofrimento.


— Alcíone já não existe — responde. — Pereceu com seu Ceix. Não digas palavras de consolo, ele naufragou e está morto. Eu o vi, reconheci-o. Estendi os braços para retê-lo. Sua sombra esvaneceu-se, mas era a verdadeira sombra de meu marido. Não com as feições costumeiras, não com sua beleza, mas pálido, nu e os cabelos molhados pela água do mar, para fazer-me sofrer. Aqui, neste mesmo lugar, esteve a triste visão. — E Alcíone olhou, procurando suas pegadas. — Era isto, era isto que meu espírito previa, quando lhe implorei que não me deixasse, que não se confiasse às águas. Oh, quanto desejaria, uma vez que foste, que me tivesses levado contigo! Quanto melhor teria sido! Não teria, então, um resto de vida para passar sem ti, nem de morrer uma morte separada. Se eu pudesse suportar a vida e lutar para tolerá-la, seria mais cruel para comigo mesma do que o mar tem sido. Mas não lutarei, não me separarei de ti, desventurado marido. Desta vez, pelo menos, far-te-ei companhia. Na morte, se um só túmulo não pode conter-nos, um só epitáfio conterá; se não posso misturar minhas cinzas com as tuas, meu nome, pelo menos, não será separado do teu. O sofrimento impediu-a de dizer outras palavras, e as que dizia foram interrompidas por lágrimas e soluços. Já era manhã. Alcíone dirigiu-se à praia e procurou o lugar onde vira o marido pela última vez, por ocasião de sua partida. — Enquanto ajustava os apetrechos do navio, ele me deu aqui o último beijo. Revendo cada objeto, ela se esforça para relembrar todos os incidentes, contemplando o mar, e avista, então, um objeto indistinto, flutuando na água. A princípio, duvidou do que fosse, mas, pouco a pouco, as águas o foram trazendo mais para perto, e não havia dúvida de que era o corpo de um homem. Embora sem saber de quem se tratava, como era o corpo de um náufrago, Alcíone ficou profundamente comovida e derramou lágrimas copiosas, exclamando: — Ah, desventurado e desventurada esposa, se tens esposa! Empurrado pelas águas, o corpo aproximou-se. E, ao vê-lo aproximar-se, Alcíone tremia cada vez mais. Agora, aproxima-se mais da praia. Aparecem, agora, sinais que ela reconhece. E o marido... Estendendo para o corpo os trêmulos braços, ela exclama: — Oh, adorado marido, é assim que voltas para junto de mim?

Partindo da praia, fora construído um molhe, destinado a conter a fúria do mar. Alcíone salta sobre esta barreira e (coisa maravilhosa que o pudesse fazer) voa e, cortando o ar com asas que haviam surgido naquele instante, aflorou a superfície da água, transformada numa ave desventurada. Enquanto voava, saíam-lhe da garganta sons dolorosos, semelhantes à voz de alguém que se lamenta. Ao tocar o corpo mudo e sem sangue com as asas recém-formadas, tentou beijá-lo, com seu bico ósseo. Se Ceix sentira o contato, ou se foi simplesmente ação das ondas, aqueles que contemplavam a cena não souberam dizer, mas o cadáver pareceu levantar a cabeça. Na verdade, porém, ele sentiu e, pela benevolência dos deuses ambos os esposos foram transformados em
aves. Acasalaram-se e reproduziram-se. Durante sete plácidos dias, no inverno,
Alcíone choca os ovos no ninho, que flutua no mar. Então, as rotas são seguras para os marinheiros. Éolo impede que os ventos sacudam as profundezas das águas. O mar fica entregue, durante esse tempo, aos seus netos. Os seguintes versos do poema "A Noiva de Abidos", de Byron, poderiam parecer emprestados à parte final desta descrição, se não se esclarecesse que o autor se inspirou na observação do movimento de um cadáver flutuando nas águas:

No leito movediço sacudida,
Pende, ao sabor da vaga, a nívea face
E move-se, na vaga, a mão sem vida
Qual se de tanta dor e tantas mágoas
Com um gesto de ameaça se vingasse,
Mas logo rosto e mãos somem nas águas.
Milton, em seu "Hino à Natividade", assim alude à lenda Alcíone:
Bem tranqüila era a noite em que o Príncipe
Da luz sobre esta terra começou
Seu reinado de paz.
Serena, a brisa
De leve o mar beijava.
O oceano
Mal se movia.
E as aves da bonança
Em seu ninho vagavam sobre as ondas.
Também Keats diz, no "Endimião":
Maravilhoso sono!
Benfazeja
Ave que, no turbado mar da alma,
Seu ninho faz, até que o mar esteja
Tranqüilo e manso, e a natureza calma.

Fonte: O livro de ouro da mitologia

Árion

ÁRION

Árion foi um famoso músico, que morava na corte de Periandro, Rei de Corinto, de quem era favorito. Havia uma competição musical na Sicília e Árion desejava ardentemente disputar o prêmio. Contou seu desejo a Periandro, que lhe implorou como a um irmão que desistisse da idéia. Fica comigo, peço-te e sê feliz disse o rei. Quem deseja vencer pode perder. Uma vida errante convém melhor ao coração livre de um poeta respondeu Árion. O talento que um deus me concedeu deve servir de fonte de prazer aos outros. E se eu conquistar o prêmio, quanto será aumentado o prazer que ele me der pela consciência de minha fama! Árion partiu, conquistou o prêmio e embarcou de volta, com seu tesouro, num navio coríntio. Na manhã do segundo dia, depois de terem zarpado, o vento soprava suave e favorável. O Periandro, põe de lado teus temores! Exclamou Árion. Em breve há de esquecê-los, quando eu te abraçar. Com que prodigalidade mostraremos nossa gratidão aos deuses e quanto será alegre o banquete festivo! O vento e o mar continuaram propícios. Nem uma nuvem cobria o armamento. Não fora demais confiar no oceano mas deveria Árion ter desconfiado dos homens. Ouviu os marinheiros conversarem em voz baixa uns com os outros e descobriu que estavam planejando apoderar-se de seu tesouro. 
Não tardaram a cercá-lo, aos gritos e ameaças, e disseram: Árion, deves morrer! Se queres um túmulo em terra, resigna-te a morrer onde estamos. Do contrário, lança-te ao mar. Nada vos satisfará a não ser minha vida? Disse Árion. Tomai meu ouro e de boa vontade comprarei minha vida a tal preço. Não, não! Não podemos poupar-te, tua vida seria muito perigosa para nós. Onde poderíamos livrarmo-nos de Periandro se ele soubesse que te havíamos roubado? Teu ouro nos seria de pouca valia se, voltando para nossa terra, jamais pudéssemos nos ver livres do temor. Concedei-me, então retrucou Árion, o último pedido. Uma vez que nada salvará minha vida, que eu possa morrer como tenho vivido, como um bardo. Quando eu tenha entoado meu canto de morte e as cordas de minha harpa tenham cessado de vibrar, então me despedirei da vida e me curvarei, sem queixar, ao meu destino. Este pedido, como os outros, não seria atendido os marinheiros pensavam apenas nos despojos se não fosse o desejo de ouvir um músico tão famoso, que comovia seus rudes corações. Permiti-me acrescentou Árion que componha minhas vestes. Apolo não me favorecerá se eu não estiver devidamente envolto em minhas vestes de menestrel.
Cobriu o bem proporcionado corpo de ouro e púrpura agradáveis à vista, a túnica caía em torno dele com dobras graciosas, pedras preciosas adornavam-lhe os braços, na testa tinha uma coroa de ouro e sobre o pescoço e os ombros flutuavam seus cabelos perfumados de essência. Na mão esquerda tinha a lira e na direita a varinha de marfim com que feria suas cordas. Inspirado, pareceu beber o ar da manhã e brilhar aos raios do sol matutino. Os marinheiros fitaram-no com admiração. Árion avançou até o convés do barco e olhou para as profundidades do mar azul. Dirigindo-se à sua lira, cantou: "Companheira de minha voz, vem comigo ao reino das sombras. Por mais que Cérbero rosne, conhecemos o poder do canto capaz de aplacar-lhe a ira. Vós, heróis do Elísio que atravessastes as águas sombrias, vós, almas venturosas, em breve irei juntar-me ao vosso grupo. Podeis, contudo, aliviar minha dor? Ah! Deixo atrás de mim meu amigo. Tu, que encontraste tua Eurídice e a perdeste de novo tão cedo a encontraste; quando ela se desvaneceu como um sonho, quanto odiaste a alegria da luz! Devo partir, mas partirei sem medo. Os deuses olham para nós. Vós que me matais sem motivo, quando eu aqui já não estiver, chegará vosso tempo de ter medo. Vós, Nereidas, recebei vosso hóspede, que se entrega à vossa mercê!" 
Assim dizendo, atirou-se às profundidades do mar. As ondas cobriram-no, e os marinheiros prosseguiram viagem, acreditando-se livres do perigo de serem descobertos. Os acordes da música de Árion, porém, tinham atraído os habitantes das profundezas marinhas, e os golfinhos acompanhavam o navio como se aprisionados pelo encantamento. Enquanto o bardo lutava contra as ondas, um golfinho ofereceu-lhe montaria e transportou-o são e salvo para a costa. No lugar em que ele chegou à terra foi erguido, mais tarde, um monumento de bronze sobre o rochedo, para relembrar o fato. Quando Árion e o golfinho se separaram, cada um se dirigindo para o seu próprio elemento, o bardo assim manifestou sua gratidão: Adeus, peixe fiel e amigo! Quisera recompensar-te, mas não podes seguir comigo, nem eu contigo. Não podemos ser companheiros. Possa Galatéia, rainha das profundidades marinhas, conceder-te seus favores, e tu, orgulhoso do encargo, arrastar sua carruagem sobre o liso espelho do oceano. Afastando-se do litoral, Árion em breve viu diante de si as torres de Corinto. Caminhava empunhando a harpa, cantando enquanto marchava, cheio de amor e felicidade, esquecido dos prejuízos e atento apenas ao que lhe restava: seu amigo e sua lira. 
Entrou no hospitaleiro palácio e Periandro o recebeu entre os braços. Volto para junto de ti, meu amigo disse ele. O talento que um deus me concedeu tem constituído o deleite de milhares de pessoas, porém malfeitores traiçoeiros privaram-me do meu bem-merecido tesouro. Conservo, contudo, a consciência de minha fama. Contou, então, a Periandro todos os fatos maravilhosos que lhe haviam acontecido e que foram ouvidos com assombro. Será possível que tal perversidade triunfe? Exclamou o rei. Seria inútil, então, o poder que tenho nas mãos. Para que possamos desmascarar os criminosos, deves ficar aqui escondido, de modo que eles aqui se apresentem sem desconfiança. Quando o navio chegou ao porto, Periandro convocou os marinheiros. Não tivestes notícia de Árion? Perguntou. Espero ansiosamente o seu regresso. 
Deixamo-lo bem e próspero, em Tarento responderam. Enquanto diziam estas palavras, Árion apareceu e encarou-os. Seu bem-proporcionado corpo estava coberto de ouro e púrpura agradáveis à vista, a túnica caía em torno dele com dobras graciosas, pedras preciosas adornavam-lhe os braços, na testa tinha uma coroa de ouro e sobre o pescoço e os ombros flutuavam os cabelos perfumados de essência. Na mão esquerda tinha a lira e na direita, a varinha de marfim com que feria as cordas. Os marinheiros caíram prostrados aos seus pés como se um raio os houvesse fulminado. Quisemos assassiná-lo e ele transformou-se em um deus! Oh terra abre para receber-nos! Periandro falou, então: Ele vive, o mestre do canto! O céu misericordioso protege a vida do poeta. Quanto a vós, não invoco o espírito da vingança; Árion não deseja vosso sangue. Vós, escravos da cobiça, saí! Procurai alguma terra bárbara e jamais a beleza deleite vossas almas!
Acordes celestiais então se ouvem
E, flutuando nas ondas, mansamente,
Com o som de sua harpa Árion cativa
O ouvido e o coração de toda a gente.
Até mesmo o golfinho em cujo dorso
Ele chegou, depois da travessia
Do mar Egeu, fica imóvel, quedo,
Ouvindo a harpa, e o próprio mar a ouvindo
Seu rugido cessou, paralisado.
Byron, no Canto II do "Childe Harold", faz alusão à história de Árion, quando, descrevendo sua viagem, se refere a um dos marinheiros que tocava um instrumento musical, para divertir os demais.
Brilha a lua no céu.
Que noite linda!
A luz prateia as ondas incansáveis.
Os amantes suspiram e as virgens crêem.
Tal nosso fado quando o mar deixamos!
Entrementes, as cordas do instrumento
Tange a mão de algum novo e rude Árion
E a marinhagem escuta, embevecida.


Texto retirado do livro de ouro da mitologia

Jasão e o Velocino de Ouro

O VELOCINO DE OURO — MEDÉIA O VELOCINO DE OURO

Há muitos e muitos anos, viviam na Tessália, um rei e uma rainha, chamados Atamas e Nefele, que tinham dois filhos, um menino e uma menina. Depois de um certo tempo, Atamas enfarou da esposa, expulsou-a e casou-se com outra mulher. Nefele, receosa de que os filhos corressem perigo, em vista da influência da madrasta, tratou de livrá-los desse perigo. Mercúrio ajudou-a e deu-lhe um carneiro com velocino de ouro, no qual Nefele colocou as duas crianças, certa de que o carneiro as levaria a um lugar seguro. O carneiro elevouse no ar com as duas crianças nas costas, tomando o rumo do nascente, até que, ao passar sobre o estreito que separa a Europa da Ásia, a menina, cujo nome era Heles, caiu no mar, que passou a ser chamado Helesponto, hoje Dardanelos. O carneiro continuou a viagem, até chegar ao reino da Cólquida, na costa oriental do Mar Negro, onde depositou são e salvo o menino, Frixo, que foi hospitaleiramente recebido pelo rei do país, Etes. Frixo sacrificou o carneiro a Júpiter e ofereceu a Etes o Velocino de Ouro, que foi posto numa gruta sagrada, sob a guarda de um dragão que não dormia. Havia na Tessália outro reino, perto do de Atamas, e governado por um parente seu. 

Cansado com os cuidados do governo, o Rei Esão passou a coroa a seu irmão Pélias, com a condição de que este a mantivesse apenas durante a menoridade de seu filho Jasão. Quando, chegando à idade conveniente, Jasão foi reclamar a coroa a seu tio, este fingiu-se disposto a entregá-la, mas, ao mesmo tempo, sugeriu ao jovem a gloriosa aventura de ir em busca do Velocino de Ouro, que se sabia estar no reino da Cólquida e que, segundo afirmava Pélias, era a legítima propriedade da família. Jasão acolheu a idéia e tratou logo de fazer os preparativos para a expedição. Naquele tempo, a única navegação conhecida pelos gregos era feita em pequenos botes ou canoas, feitos de troncos de árvores, de modo que, quando Jasão incumbiu Argos de construir uma embarcação capaz de transportar cinqüenta homens, o empreendimento foi considerado como gigantesco. Foi realizado, contudo, e o barco tomou o nome de "Argo", em homenagem ao seu construtor.
Jasão convidou a participarem da empresa todos os jovens gregos amantes de aventuras, muitos dos quais tornaram-se depois conhecidos entre os heróis e semideuses da Grécia. Entre eles, encontravam-se Hércules, Teseu, Orfeu e Nestor. Os expedicionários foram chamados argonautas, do nome do barco. O "Argo", com sua tripulação de heróis, deixou à costa da Tessália e, depois de tocar na Ilha de Lemos, fez a travessia para a Mísia e dali passou à Trácia, onde os argonautas encontraram o sábio Frineu e dele receberam instruções sobre o futuro curso. A entrada do Ponto Euxino estava impedida por duas pequenas ilhas rochosas, que flutuavam na superfície do mar e, sacudidas pelas vagas, ajuntavam-se, às vezes, esmagando completamente qualquer objeto que estivesse entre elas. Eram chamadas as Simplegades, ou Ilhas da Colisão. Frineu instruiu os argonautas sobre o modo de atravessar aquele estreito perigoso. Quando os expedicionários chegaram às ilhas, soltaram uma pomba, que passou entre os rochedos sã e salva, perdendo só algumas penas da cauda. Jasão e seus companheiros aproveitaram-se do momento favorável em que as ilhas se afastavam uma da outra, remaram com vigor e passaram a salvo, enquanto as ilhas se colidiam de novo, atingindo a popa do barco. 

Remaram, então, ao longo do litoral, até chegarem à extremidade oriental do mar, onde desembarcaram no reino da Cólquida. Jasão transmitiu sua mensagem ao rei Etes, que concordou em desistir do Velocino de Ouro, se Jasão, por sua vez, concordasse em arar a terra com dois touros de patas de bronze que soltavam fogo pela boca e pelas narinas, e semeasse os dentes do dragão que Cadmo matara e dos quais sairia, segundo se sabia, uma safra de guerreiros, que voltariam suas armas contra o semeador. Jasão aceitou as condições e foi marcada a ocasião das provas. Antes, porém, ele conseguiu pleitear sua causa junto de Medéia, filha do rei, a quem prometeu casamento, invocando, por juramento, o testemunho de Hécate, quando se encontravam diante de seu altar. Medéia cedeu e, graças à sua ajuda, pois ela era uma poderosa feiticeira, Jasão conseguiu um encantamento, para se livrar da respiração de fogo dos touros e das armas dos guerreiros.
Na ocasião marcada, o povo reuniu-se no Campo de Marte e o rei sentou-se no trono, enquanto a multidão ocupava as elevações próximas. Os touros de patas de bronze surgiram, respirando fogo e queimando as ervas, enquanto passavam com as chamas que lhe saíam das narinas. O ruído que faziam era semelhante ao de uma fornalha e a fumaça que desprendiam à provocada pela água lançada sobre a cal viva. Jasão avançou ousadamente, para enfrentá-los. Seus amigos, os heróis escolhidos da Grécia, tremeram ao contemplá-lo. Não obstante a respiração de fogo dos touros, ele lhes acalmou com a voz, afagou-os no pescoço e destramente colocou-lhes o jugo e obrigou-os a arar a terra. Os habitantes da Cólquida ficaram assombrados; os gregos lançaram gritos de alegria. Logo surgiu a sementeira de homens armados e — maravilha das maravilhas! — mal tinham atingido a superfície da terra, esses homens, brandindo suas armas, investiram contra Jasão. 
Os gregos tremeram de medo por seu herói, e mesmo aquela que lhe fornecera um meio de proteger-se e ensinara-lhe como usá-lo, a própria Medéia, empalideceu de temor. Jasão, durante algum tempo, manteve os atacantes a distância, com a espada e o escudo, mas, vendo que seu número era esmagador, recorreu ao encantamento que Medéia lhe ensinara: pegou uma pedra e atirou-a no meio dos inimigos. Estes, imediatamente, voltaram as armas uns contra os outros e, dentro em pouco, não havia vivo um só da estirpe do dragão. Os gregos abraçaram seu herói, e Medéia também o teria abraçado, se se atrevesse. Restava fazer adormecer o dragão que guardava o velocino e isso foi conseguido lançando-se sobre ele algumas gotas de um preparado que Medéia fornecera. Sentindo-lhe o cheiro, o dragão acalmou-se, ficou imóvel, por um momento, depois fechou os grandes olhos redondos, que, segundo se sabia, nunca fechara antes e, virando-se de lado, adormeceu. Jasão apoderou-se do velocino e, acompanhado dos amigos e de Medéia, apressou-se em dirigir-se ao barco, antes que o rei Etes impedisse a partida, e voltou à Tessália, onde todos chegaram sãos e salvos, e Jasão entregou o velocino a Pélias e consagrou "Argo" a Netuno. Não sabemos o que foi feito posteriormente do Velocino de Ouro, mas talvez se tenha verificado, à semelhança de muitos outros tesouros, que ele não valera o trabalho da conquista.

O episódio é uma dessas histórias mitológicas, observa um escritor, em que há razão para acreditar na existência de um substrato de verdade, embora perdida entre muita ficção. Trata-se, provavelmente, da primeira expedição marítima importante e, como se dá com as tentativas dessa espécie em qualquer nação, ao que a história nos ensina, deve ter tido, de certo modo, um caráter de pirataria. Se foram colhidos ricos despojos, tal fato seria suficiente para fazer surgir a idéia do velocino de ouro. Pope, em sua "Ode ao Dia de Sta Cecília", assim celebra o lançamento ao mar do navio "Argo" e o poder da música de Orfeu, a quem chama o Trácio:
Quando a primeira nau, ousadamente;
Desafiou o mar, em sua popa;
O Trácio as cordas dedilha da lira;
Enquanto Argos contemplava as árvores;
Até há pouco suas companheiras;
Descer do Pélion para à praia virem;
Os semideuses em silêncio ouviram;
E os homens em heróis se transformaram.
No poema de Dyer, "O Velocino", há uma descrição do "Argo" e sua tripulação, que dá uma boa idéia dessa aventura marítima primitiva:
Reúnem-se os heróis vindos de todo;
O litoral do Egeu: Castor e Polux;
Os ilustres irmãos, e Orfeu, o bardo;
De lira pura e maviosa, e Zetas;
E Calais, tão velozes quanto o vento;
Hércules e outros chefes renomados;
Na branca praia de Iodes eles se apinham;
Com as claras armaduras reluzindo;
A corda de loureiro e a enorme pedra;
Ao convés são alçadas, zarpa a nave;
Cuja quilha perfeita mão de Argos;
Para a ousada aventura construída.
 Hércules deixou a expedição em Mísia, porque Hilas, um jovem amado por ele, tendo desembarcado para buscar água, ficou detido pelas ninfas da fonte, fascinadas por sua beleza, Hércules entrou numa discussão, por causa do jovem, e, durante sua ausência, o "Argo" se fez ao mar, deixando-o. Em uma de suas canções, Moore faz uma bela alusão a esse incidente:
Quando Hilas foi encher o seu cântaro à fonte;
Ia alegre, jovial, ao caminhar sozinho;
E o cântaro, a vagar pelos prados e montes;
Largou, para colher as flores do caminho.
***
Desdenhei de beber, em minha juventude;
Na fonte do saber da sã filosofia;
Com as flores me ocupei tão só, enquanto pude;

E a urna que levei deixei ficar vazia.







Texto: O Livro de Ouro da Mitologia

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