Autoestima:
você é bonita do jeito que você é
Conheça mulheres de bem com seu corpo e que
desafiam os padrões estabelecidos
Texto: Kátia
Stringueto | Reportagem visual: Mônica Tagliapietra | Cabelos e maquiagem:
Keyla Martinelli
Certa
vez, ouvi a história de uma mulher que sempre que se olhava no espelho via uma
fissura nele. Até um dia em que eram tantas as trincas que ela se enxergou
partida em pedaços. A tristeza a deixou no chão e suas lágrimas molharam a
terra. Ela tocou o barro, o amassou e criou um lindo pote. E, ao olhar aquele
pote imponente em sua simplicidade, ela mesma se sentiu refeita. Íntegra.
Voltou a mirar o espelho e não havia mais rachaduras. Via seu contorno, e seu
orgulho se dilatava. As histórias desta reportagem, contadas por Bianca, Ana,
Ana Cláudia, Márcia e Tatiana, falam do mesmo resgate. Poderíamos entrevistar
outras mil mulheres e descobrir outros mil dilemas se jeitos de se gostar,
porque a conquista da beleza é questão universal, mas a solução é individual.
“Ajuda
saber que podemos ser altamente críticos em relação a nosso aspecto físico,
mas, na verdade, as outras pessoas não estão atentas a tudo”, observa o artista
forense Gil Zamora, contratado pela Dove para fazer o retrato falado de sete
mulheres que, escondidas por uma cortina, descreviam suas características
(quando outras pessoas falavam delas, os traços sempre eram mais delicados e
bonitos). Segundo ele, “não vemos a beleza em nós mesmos como os outros veem
porque focamos naquilo que não gostamos.”Para a escritora Marina Colasanti, as
muito divulgadas pesquisas que falam da baixa autoestima feminina podem
esconder um desvio. “Quando alguém nos pergunta se nos consideramos bonitas,
achamos melhor ser modestas na resposta, pois desconhecemos a referência de
beleza que o entrevistador tem. E se for a Gisele Bündchen?”, brinca.
Descontadas essas situações, no entanto, há bons motivos para nos admirarmos um
tanto mais. O bom humor é um elixir nesse sentido. A própria Marina, numa
crônica que escreveu em seu primeiro livro, elogia os olhos verdes que tem e
emenda: “Entre eles, ocupando mais espaço do que o estritamente necessário, meu
nariz é elemento básico para manter viva a ilusão de que, no dia em que
resolver ficar bonita, será suficiente operá-lo”.
Elegante
consigo mesma, ela ensina, com sua escrita particular, a olhar para um nariz de
arestas perigosas quase como objeto de desejo e convida toda mulher a amar suas
assimetrias ou imperfeições com maior apreço. “Sempre gostei de rosto que é
um”, diz, valorizando a singularidade acima de qualquer padrão.
Até
porque o que é bonito hoje pode não ser amanhã e vice-versa. “Surfar na onda de
um determinado modelo é certeza de sofrimento, já que a beleza é mutante”, diz
a escritora. “No século19, o máximo da perfeição eram os ombros caídos, que
representavam a delicadeza e a submissão femininas. Hoje, a mulher acha bonito
ter pernas de jogador de futebol. O que virá depois?” Difícil prever. Melhor é
entender que todo mundo ambiciona, e sempre ambicionou estar entre os rostos
mais encantadores, pois beleza tem a ver com poder, sedução.
E
sua falta dói. “Não se sentir bonito é não se sentir aceito. E a rejeição
aciona uma dor difusa como um pesar. Trata-se de uma emoção negativa que afeta
o sistema límbico, secreta o hormônio adrenalina e causa uma sensação de peso
no coração”, explica o neurofisiologista Renato Sabbatini, da Universidadede
Campinas, no interior paulista. Curiosa é a explicação de fundo biológico que o
especialista dá à natureza feminina de viver se comparando com as demais. “Nos
primórdios, a mulher tinha que disputar a atenção do homem com outras mulheres
porque dependia dele para sobreviver. Se ele não a elegesse e não trouxesse
comida para a caverna, morriam todos. Ela e a prole”, conta.
Hoje,
quando a mulher é sua própria provedora, esse instinto competitivo está ficando
fora de lugar e representa uma carga pesada. Mais saudável é optar por uma
autonomia bem nutrida. Segundo o psicoterapeuta Antonio Carlos Amador Pereira,
da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, “quem foi educada para pensar
por si mesma não vai engolir modelos prontos. Vai questionar se a roupa e o
corpo impostos têm a ver com ela”.
“Autoestima
é a capacidade de se sentir potente na vida”, sintetiza a psicóloga Márcia
Atik, de Santos, São Paulo. “E quem nos dá alimento para isso somos nós mesmos.
Não é o espelho.”
Algo
que o fotógrafo Matt Blum constatou com lentes profissionais. Criador do The Nu
Project (www.thenuproject.com), iniciativa que consiste em fotografar mulheres
comuns, com o mínimo de maquiagem e zero de glamour, ele confessa que seu juízo
de beleza feminina mudou 100%. “Eu me deparei com muitos preconceitos ao longo
do trabalho e todos foram caindo um a um. A questão não é dizer que as top
models não são bonitas. Elas foram abençoadas pela natureza, e isso é muito
agradável. Mas minhas fotos favoritas são aquelas em que a mulher, não importam
a idade e o peso, está à vontade consigo mesma. Se ela está confortável em sua
própria pele, isso aparece imediatamente”, observa.
Um
menear da cabeça, um traço de timidez ou atrevimento podem não sensibilizar
todas as pessoas, mas vão tocar a
quem mais interessa. E ninguém melhor do que
mestres do olhar para dar esse testemunho. Ao definir o fundamental para captar
uma imagem, Henri Cartier-Bresson (1908-2004) disse: “É uma experiência
conjunta de olhos, coração e inteligência. Você fotografa o que você vê, mas o
que você vê – isso depende de quem você é”. Outro fotógrafo renomado, o
esloveno Evgen Bavcar, avisa para não utilizar o olhar dos outros, “porque,
nesse caso, existimos através do outro. É preciso tentar existir por si mesmo”.
Detalhe: Bavcar é cego.




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